JB Online - Dezembro de 2007

imagem da materia no JBonlineO trio musical da Corte

Rosana Lanzelotte Cravista

Assim como dom João VI é injustamente considerado um bobo bonachão, a vida musical de sua corte no Rio é recheada de histórias imaginadas por alguns e repetidas por muitos ao longo de 200 anos. A primeira grande verdade é que dom João era grande apreciador de música e que sua presença freqüente nas missas no Convento de Mafra devia-se não somente ao seu ardor religioso, mas também ao prazer que lhe dava ouvir a música do compositor Marcos Portugal.

A música litúrgica feita pelos compositores portugueses no século 18 seguia, como quase todas as manifestações artísticas, o estilo italiano, a exemplo de outras cortes européias. Mas, ao contrário de outros países, a igreja na Península Ibérica era também o lugar de festa, de quermesse, de confraternização. A música era alegre, os coros entremeados de árias de grande virtuosismo vocal, quase operístico.

Não seria, então, de estranhar que dom João quisesse se fazer acompanhar de Marcos, que desfrutava de sucesso tanto na Itália como em Portugal, com centenas de óperas apresentadas em metrópoles do porte de Veneza e Paris. No Brasil, sua música era conhecida desde pelo menos 1799, mas Marcos suspeitava, com razão, de que a sua transferência para o novo mundo poderia acabar com sua carreira.

Ao desembarcar, dom João teve uma agradável surpresa: padre José Maurício Nunes Garcia dirigiu a música da missa que marcou a chegada da comitiva em 8 de março de 1808, na Sé, na igreja do Rosário, próximo ao Largo de São Francisco. Encantou o príncipe. Tanto que, além de transferir a Sé para a igreja do Carmo, mais próxima do Paço onde residia, criou a Real Capela, nos moldes da que o servia em Lisboa, e nomeou José Maurício o mestre da Capela. Os músicos eram bem pagos, em muitos casos com dinheiro do real bolsinho, da fortuna pessoal de Sua Alteza.

Mas a maré não estava para lusos, muito menos para Marcos, em Lisboa. E dom João ordenava-lhe que viesse para o Rio na primeira embarcação, segundo despacho de 7 de janeiro de 1811. O projeto de poder de dom João passava pelo compositor, que foi incumbido da música para as ocasiões mais importantes, como as exéquias da rainha Maria I, em 1816. Suas óperas - O ouro não compra amor, Merope e Artaxerxes - foram apresentadas nos dois teatros da corte, São João e Real, desde o ano da chegada.

José Maurício continuava mestre da Real Capela e compunha, agora, no estilo mais "italianizado", ao gosto da corte. Também escreveu algumas modinhas e poucas obras para teatro, cujas partituras dom João levou consigo quando de sua volta a Portugal.

Muito se fala da rivalidade entre os dois compositores, mais do que compreensível. A leitura "antropofagista" elegeu Marcos o carrasco de José Maurício, um equívoco perpetuado desde 1922. Dom João não abandonou José Maurício em prol de Marcos. Foi seu filho Pedro quem os deserdou igualmente quando se tornou imperador, em 1822. Graças a ele, os dois músicos morrem na miséria em 1830.

O terceiro personagem dessa história é o austríaco Sigismund Neukomm, que, por suas ligações com a maçonaria e com os artistas da Missão Artística Francesa, desembarca no Rio em 1816. Encantado com a música popular brasileira e com o talento de José Maurício, é o instrumento pelo qual a nossa produção musical chega à Europa. Neukomm inaugura no país a música de câmara e a música sinfônica. Foi o autor da primeira sinfonia escrita em solo brasileiro. E, pela primeira vez, mistura-se a música clássica e popular. Ele é autor de O amor brasileiro, inspirado em um lundu, e L'Amoureux, na obra do modinheiro Joaquim Manoel da Câmara.